Dietas hipoproteicas diminuem a taxa de mortalidade global e por câncer?

Dietas hipoproteicas diminuem a taxa de mortalidade global e por câncer?

Dietas hipoproteicas diminuem a taxa de mortalidade global e por câncer? Analisando os resultados e metodologia do estudo de Levine e Suarez.

Há aproximadamente dois meses, mais precisamente no dia 4 de março de 2014, foi publicado na revista Cell Metabolism um estudo que vem dando margem a grandes debates e uma certa preocupação, principalmente entre os praticantes de atividades físicas, prescritores e adeptos de dietas hiperproteicas.

Em linhas gerais e o que foi amplamente comentado, pois dá o título ao artigo é: “Baixa ingesta proteica está associada a redução importante do IGF-1 e da mortalidade global e por câncer, na população com menos de 65 anos, porém não nos mais idosos.”

A primeira vista o que se passa na cabeça daquele que tem na sua rotina uma dieta hiperproteica (inclusive na minha!) e não teve a oportunidade de analisar o estudo a fundo é: “Proteína em excesso mata e dá câncer!”. Mas nem tudo é tão simples quanto parece e as conclusões do estudo estão longe de ser tão superficiais. Então vamos destrinchar o que o estudo realmente fala e sua metodologia, para podermos então entender melhor o que podemos aprender com ele. A leitura é longa, mas sem dúvida irá jogar uma luz sobre o assunto.

Inicialmente devo observar o seguinte: o referido trabalho foi publicado por uma equipe de ponta, com notório conhecimento na área de metabolismo celular e publicado numa revista com nível de impacto IA (o mais alto que existe), ou seja, passou pelo crivo de um corpo editorial extremamente rigoroso. Assim, está longe de ser um trabalho “cheio de falhas” ou com “vários vieses” como já ouvi ser comentado em algumas rodas de discussão. O trabalho tem poucas margens à críticas quanto à metodologia, no entanto, como os próprios autores observam na discussão, apresenta algumas limitações e suas conclusões precisam ser validadas por outros trabalhos.

Para evitar tendenciar minhas conclusões, solicitei a um colega formador de opinião e de notório conhecimento na área de metodologia científica, para revisar junto comigo esse artigo.

Então vamos ao que o trabalho realmente observou:

I) Foram obtidos dados de um estudo epidemiológico prévio (NHANES III) e analisada a mortalidade num período de 18 anos, incluindo um grupo de 6381 adultos com 50 anos ou mais. Este grupo foi subdividido em baixo, moderado ou alto consumo proteico diário (<10%, 10-19%, >=20%), de acordo com o percentual de calorias diariamente consumidas oriundas de proteína.

II) Em toda a população estudada (>50 anos), o consumo moderado ou alto de proteínas diário, foi associada a uma maior mortalidade relacionada ao Diabetes, porém não aumentou a taxa de mortalidade global, por câncer ou doença cardiovascular.

III) Ao analisar somente o subgrupo entre 50-65 anos, o consumo moderado e alto de proteínas esteve associado a uma maior taxa de mortalidade global e por câncer. O consumo percentual de carboidratos e gordura não influenciou nessas taxas. Um dado interessante aqui: esse risco foi atenuado (porém não extinto) quando a fonte majoritária de proteínas ingerida era de origem vegetal!

IV) Curiosamente, na população com 66 anos ou mais, o consumo moderado e alto de proteínas diário foi associado a uma redução de taxa de mortalidade global e por câncer! As taxas de mortalidade relacionadas ao Diabetes no entanto se mantiveram semelhantes.

V) A base fisiológica e hormonal para essas alterações nas taxas de mortalidade de acordo com o autor parece estar relacionada ao IGF-1 (Insulin-like Growth Factor-1), um fator de crescimento semelhante à Insulina e cuja produção é estimulada pelo GH (Hormônio do Crescimento). O IGF-1 está relacionado ao crescimento de praticamente todas as células no ser humano. No trabalho foi demonstrada uma relação positiva entre o consumo proteico e os níveis de IGF-1 circulantes, como se pode ver no gráfico.

VI) A relação entre consumo de proteínas, níveis de IGF-1 e evolução de células tumorais implantadas cirurgicamente em ratos também foi estudada. O resultado foi coincidente com os dados epidemiológicos em humanos: ratos alimentados com maiores índices de proteína na dieta tinham níveis maiores de IGF-1 e uma maior e mais rápida evolução do tumor.

Então o que o estudo efetivamente nos mostrou???

I) Dietas com mais proteínas elevam os níveis circulantes de IGF-1, o que favorece o anabolismo pelos potentes efeitos deste hormônio.

II) Dietas com mais proteínas elevaram as taxas de mortalidade por causas secundárias ao Diabetes e não influenciaram as taxas de mortalidade por causas cardiovasculares em toda a população estudada.

III) Dietas com mais proteínas elevaram nos indivíduos entre 50-65 anos as taxas de mortalidade geral e por câncer e reduziu as referidas taxas em pacientes com mais de 66 anos.

E é isso e isso é tudo!!! Não se pode dizer que aquele que pratica atividade física e suplementa com o Whey Protein por exemplo, tem maior chance de morrer de Diabetes ou de câncer entre 50-65 anos!!! Vou explicar o porque, mostrando o equívoco nessas afirmações e as limitações do estudo. Por uma questão didática, vou separar por tópicos a análise.

I) A morte por causas secundárias ao Diabetes x Prática de atividade física

Vou começar por aqui, porque essa afetou toda a população estudada. Porque alguém que consome mais proteínas morreria mais de Diabetes? Ao se pensar no viés de que pessoas diabéticas poderiam ter uma dieta mais hiperproteica como parte do seu tratamento e logo morreriam mais de Diabetes, o autor se preocupou em excluir todos os que tinham Diabetes no início do acompanhamento. Ainda assim, mesmo analisando só aqueles que NÃO tinham Diabetes no início do seguimento, o consumo de proteína moderado ou alto foi associado a uma maior mortalidade por causas relacionadas ao Diabetes. Então, uma hipótese plausível para isso seria: pessoas que consomem mais proteínas habitualmente tem um nível mais alto de ácido úrico circulante (devido à degradação de purinas). O ácido úrico elevado contribui para uma resistência periférica à insulina e assim a um aumento da Glicose sanguínea. Mas o exercício físico aumenta a sensibilidade dos tecidos à insulina num nível muito maior do que isso, levando em última análise a uma redução dos níveis de Glicemia! Tanto isso é verdade que uma recomendação para os diabéticos, principalmente do Tipo II, é a prática regular de atividades físicas (30tododia neles)! E aí se observa um detalhe no estudo: ele não levanta o nível de atividade física da população participante, o que pode sem dúvida enviesar a amostra! Ou seja, é possível que tenhamos um grupo importante de sedentários comendo excessos de proteína! Qual é a utilidade de dietas hiperproteicas para indivíduos sedentários? Possivelmente estes sim sofreram os efeitos secundários ao aumento do ácido úrico circulante descritos acima. Vale lembrar que a recomendação de ingesta proteica para estes indivíduos inativos é de 0,7-0,8g/kg de peso segundo a Food and Nutrition Board of the Institute of Medicine. Fazendo algumas contas rápidas, isto muito se aproxima de 10% ou menos das calorias diárias oriundas de proteínas, como recomendado pelo artigo. Ou seja, não se pode recomendar a um grupo formado por sedentários ou por indivíduos com nível de atividade desconhecida, uma dieta formatada para atletas! Isso parece bastante óbvio!

Um fato que fortalece ainda mais essa minha observação é a publicação do artigo “Muscle Mass Index as a Predictor of Longevity in Older-Adults” pelo Dr. Preethi Srikanthan no American Journal of Medicine, publicado em fevereiro de 2014 (ou seja, um mês antes do que estamos criticando!) e que mostra que um maior índice de massa muscular (ou seja, percentual de massa magra) aumentou a longevidade da população estudada. Curiosamente a população estudada é a do mesmo levantamento epidemiológico utilizado pelo trabalho que estamos analisando, a do NHANES III!!! Ou seja, a mesma população (os mesmos indivíduos!!!) que morre mais por comer mais proteína é aquela que vive mais se tiver mais massa muscular???!!! Parece haver algo incongruente aí! A atividade física então, é sim um aspecto relevante e merecia atenção.

II) A mortalidade por câncer mediada pelo IGF-1

O IGF-1 é um hormônio de crescimento que age sobre quase todas as células do corpo. Como tal, ele promove crescimento de células normais ou não (cancerosas). Isso é inegável. No entanto dizer que o IGF-1 (e logo uma dieta hiperproteica) causa câncer é uma afirmativa equivocada. Camundongos não desenvolvem tumores espontaneamente! O que o autor observou foi que uma vez na presença de um câncer IMPLANTADO em ratos, o consumo hiperproteico e assim o IGF-1, aumentaram a progressão do câncer previamente existente. Isso era até esperado, uma vez que ele é um fator que estimula o crescimento! Esse conhecimento a medicina já detém e é a base para não se indicar TRH em mulheres com história familiar importante de câncer de mama ou TRT em homens com história familiar importante de câncer de próstata! Ou seja, se você suspeita da presença ou risco aumentado para um câncer, é melhor não dar a ele fatores de crescimento! Assim, caso os achados desse estudo sobre a mortalidade por câncer se comprovem em outras séries, um possível cuidado a ser tomado seja evitar um estado anabólico em indivíduos entre 50-65 anos, que tenham fator de risco para câncer (ex: fumantes, pessoas com história familiar importante…). Isso parece bastante razoável.

III) A taxa de mortalidade global e o IGF-1

O IGF-1 é um hormônio comprovadamente relacionado ao envelhecimento celular. As concentrações de aminoácidos também parecem estar relacionadas a alterações no genoma e ao envelhecimento das células. No entanto não é só a ingestão de proteínas que influencia nos níveis de IGF-1. Dietas com restrição calórica (independente da fonte calórica) estão relacionadas a um aumento da expectativa de vida! Camundongos alimentados com restrição de calorias que não cause desnutrição ou em dias alternados, vivem mais (existem vários trabalhos sobre isso). Isso evolutivamente parece lógico, uma vez que o animal selvagem (o ser humano também entra aí) não foi programado para comer necessariamente todo dia e sim comer quando houvesse oferta de alimento. Só que mais uma vez o trabalho se restringe a quantificar percentuais de calorias ingeridas de cada fonte e em nenhum momento avalia quantidade total de calorias ingeridas por participante. Caso o grupo que consumia mais proteínas fosse também um grupo com um total de calorias consumidas diariamente maior, já passaríamos a ter um outro importante fator determinante para diminuição da expectativa de vida!

IV) A obtenção de dados quanto à dieta

Uma outra observação fundamental que o próprio autor coloca na sua discussão como uma limitação do estudo é a forma de obtenção de dados da dieta. Não foi feito um acompanhamento longitudinal da dieta desses indivíduos e a composição da dieta era baseado em um único relato sobre as refeições da últimas 24 horas! Dentre os indivíduos avaliados, 93% afirmou que aquele relato era representativo da sua dieta habitual e essa forma de acessar a dieta é comprovada na literatura como sendo válida. Agora é inegável que possíveis desvios nos hábitos alimentares dos 18 anos de seguimento, assim como enquadramento de pessoas em grupos de composição da dieta que não eram os adequados ou reais, são bastante prováveis. Pense bem: você come hoje em dia o mesmo que comia há 18 anos atrás?

V) As fontes de proteínas e a mortalidade

Um outro detalhe que chama atenção se analisar o trabalho é que em nenhum momento se avalia a qualidade das fontes de proteína. Ou seja, 20% das calorias da dieta oriundas de proteínas de salsicha, bacon defumado e ovos fritos (lembrem-se que são estatísticas americanas, essas fontes de proteína compõem com frequência o breakfast deles) é a mesma coisa que 20% de proteínas de Whey, claras ovo cozidas e filé de frango grelhado. Parece estranho? Bom, para mim isso faz toda a diferença! Sem me alongar muito neste ponto, mas só para exemplificar: já se sabe que existe uma associação importante entre consumo de alimentos defumados e câncer de estômago. Ou seja, o americano padrão do estudo que se entope de bacon defumado, desenvolve um câncer gástrico e morre precocemente, acabou de acrescentar taxas de mortalidade no grupo que consumia mais proteína e ela levou a culpa! Isso chama a atenção porque conflita com alguns estudos na literatura que mostram redução da incidência de câncer associado ao uso do Whey. Outro detalhe que embasa ainda mais essa observação é a feita pelo próprio autor que afirma que quando a proteína ingerida era principalmente de origem vegetal a elevação nas taxas de mortalidade foi atenuada. Ué, se o culpado fosse exclusivamente o IGF-1 e a quantidade de proteínas, então não faria diferença a fonte. Mas se faz, então é melhor pesquisar se a fonte também não tem uma relação direta com essas taxas de mortalidade, ao invés de atribuir a culpa só às quantidades.

VI) A redução das mortalidade no grupo com mais de 66 anos

Curiosamente foi observado que as dietas com consumo moderado e alto de proteínas protegeram os idosos, diminuindo a mortalidade global e por câncer. Segundo os autores isso parece ter relação com a compensação de eventuais síndromes disabsortivas e da desnutrição pela perda do apetite do idoso. Isso fica evidente ao vermos os níveis de IGF-1 caírem com a idade independente da dieta adotada. Assim um consumo maior de proteínas ajudaria a manter elevados esse níveis hormonais.

Assim, os resultados do estudo nos trazem um novo olhar ao falarmos em efeitos a longo prazo do consumo de dietas hiperproteicas e também nos alerta sobre possíveis riscos e benefícios relacionados ao processo de envelhecimento, prevenção de Diabetes e câncer. No entanto, o trabalho apresenta várias limitações e seus resultados precisam ainda ser validados por outras pesquisas.

Para aqueles que tiverem interesse em ler o artigo na íntegra, ele está disponível gratuitamente em pdf no link abaixo:

http://www.cell.com/cell-metabolism/pdf/S1550-4131(14)00062-X.pdf

O artigo sobre aumento da longevidade associado a um maior percentual de massa muscular eu não achei na internet, mas o abstract está disponível em:

http://www.amjmed.com/article/S0002-9343(14)00138-7/abstract

Concluindo, independente da qualidade da fonte, é sempre importante analisar com cuidado e crítica afiada tudo o que se lê e nunca inferir conclusões que não são concretas.

Forte abraço e bons treinos! (Com proteína!)

Texto escrito por Dr. Pietro Mannarino
Médico do Serviço de Traumato-Ortopedia UFRJ e Professor do Departamento de Ortopedia da UFRJ.
Tel: 3148 1880.

Revisão: Dr. César Fontenelle
Chefe de Clínica do Serviço de Traumato-Ortopedia da URFJ e Preceptor do Programa de Residência Médica em Ortopedia da UFRJ.

Um comentário em “Dietas hipoproteicas diminuem a taxa de mortalidade global e por câncer?

  1. Finalmente alguém analisando com conhecimento esse estudo!
    Desde que ele foi publicado, procurava por uma análise do mesmo.
    Parabéns pelo texto, Julia!

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